Apresentação

PSICANÁLISE E A HIPÓTESE COMUNISTA

“Os que negam o comunismo são típicos não-tolos que erram a serviço dos poderosos do momento. O comunismo é o contrário exato de uma utopia, é o verdadeiro nome do real como impossível. Ceder quanto ao comunismo ou quanto a qualquer outro nome possível de exceções emancipatórias é ceder quanto a qualquer forma de desejo político verdadeiro”

                    Alain Badiou

 

O colóquio “Psicanálise e a Hipótese Comunista”, que acontece na Universidade de São Paulo, dia 13 de maio, pode parecer extemporâneo, desconectado de um diagnóstico cuja validade a própria psicanálise parece respaldar. Não vivemos, afinal, o fim da história, o fim das “grandes narrativas”, avisados dos perigos de qualquer projeto político programático e de pretensões universais?

Para além das críticas conservadoras, que simplesmente atestam a catástrofe deixada pelos projetos políticos que marcaram o século vinte, a psicanálise reconhece nessa mudança histórica a passagem de uma forma de organização social calcada na figura da totalidade, nas promessas futuras de harmonia e reconciliação, para uma sociedade cujo real foi tocado pelas consequências dessa forma de organização do mundo e de nossas expectativas: conhecemos hoje os efeitos de segreração real produzidos pelos ideais, o horror do maquinário frio da técnica colocado a serviço de uma figura universal do homem, o alcance inaudito do imperativo superegóico que incide diretamente sobre os corpos. Como, então, unir psicanálise – esse pensamento tão ceticamente avisado das pretensões do Bem – e o comunismo – o nome de fracassos históricos singulares, dos quais a própria psicanálise se serviu para demarcar sua distância prudente dos ideais políticos?

Mais além de qualquer tentativa de remendar o século vinte, o que assistimos nos últimos anos é, na verdade, uma tentativa por parte de pensadores engajados com esse binômio aparentemente incomensurável de começar o século vinte um. Encontramos nas obras de Alain Badiou, Slavoj Zizek, Jean-Luc Nancy, Kojin Karatani, entre outros, um esforço de pensamento político condicionado pela psicanálise e suas consequências. Críticas à teleologia e à necessidade como fontes de sentido, ao lugar do saber na organização social e política, ao papel da totalidade e da unidade – todas foram elaboradas e assimiladas por esses autores que, aceitando o que a psicanálise pensou, no entanto rejeitam os limites daquilo que ela tomou por simplesmente impensável: uma nova afirmação do projeto universalista de emancipação política e econômica. Como escreve o filósofo Alain Badiou, trata-se da possibilidade de pensarmos a nova encarnação da ideia comunista.

O início do século traz consigo, assim, o desafio de uma nova articulação entre psicanálise e marxismo. O século passado conheceu um grande programa de pesquisa baseado na relação entre esses dois campos, o freudo-marxismo, que, em sua definição mais abrangente e vaga, pode ser entendido como uma tentativa de substituir os impasses de um campo pelos lugares-comuns do outro: o inconsciente explica a ausência de insurreição, as relações de dominação e autoridade explicam os limites da eficácia da interpretação, etc. O desafio com o qual nos confrontamos hoje é outro, menos calcado na construção de uma relação positiva do que na solidariedade dos fracassos. Ou seja, tal como o amor que nomeia a própria filosofia, cabe hoje à psicanálise permitir que o pensamento marxista se aventure mais além de sua própria identidade e de suas certezas, bem como ao marxismo encontrar na psicanálise os impasses onde esta poderia ser mais psicanalítica do que pode permitir a si mesma atualmente. Daí, por fim, a importância de substituir o laço de complementaridade entre a psicanálise e o marxismo pelo impasse, ou mesmo a não-relação, que a expressão “psicanálise e hipótese comunista” condensa.

Pensar o comunismo a partir da psicanálise não é, como deixamos entrever acima, sem consequências para a própria psicanálise. Afinal, qual seria o papel dentro da prática e da teoria analítica dessas restrições que com tanta facilidade deduzimos da psicanálise para a aplicação indiscriminada nos mais variados campos do saber: política, arte, ciência, etc? Se é verdade que a psicanálise pode nomear o luto ainda por ser feito pelos militantes comunistas frente à catástrofe e o fracasso indiscutíveis das experiências soviéticas, chinesas, entre outras, não será também a coragem revolucionária capaz de inspirar a psicanálise a reinventar sua vocação emancipatória numa época em que essa parece minguar-se?

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O colóquio “Psicanálise e a Hipótese Comunista’ é organizado pelo Laboratório Psicanálise e Sociedade, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo juntamente com o Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia.